A luta contra o REUNI: novas perspectivas para o movimento estudantil
Desde a apresentação do modelo de expansão universitária do governo Lula, o Reuni (Universidade Nova), o movimento estudantil entrou em ação como a muito tempo não se via.
Demonstrações caricatas como da novela Duas Caras, foram recorrentes durante o último período. Nos mostra o quanto o movimento estudantil está se superando qualitativamente e colocando os setores conservadores em franco ataque contra as mobilizações estudantis que reivindicam democracia, assistência estudantil, melhores condições de trabalho para funcionários técnicos e professores, além de pesquisa científica voltada para a sociedade e não para os interesses meramente financeiros.
Esta recuperação vem após um período de dificuldade do movimento estudantil. Há mais de 16 anos na direção majoritária da UNE, a UJS (PC do B), mantém a entidade como arena de interesses meramente institucionais, desgarrada das lutas dos estudantes, trocando verbas e cargos no governo por apoio acrítico ao governo Lula.
UNE cada vez mais atrelada ao governo
Atualmente, o governo federal já acenou com a liberação de 9 milhões de reais para reconstruir a sede da entidade no Flamengo, Rio de Janeiro, sendo que o projeto pode chegar ao valor de 40 milhões de reais! Isso sem contar os inúmeros apoios do governo a cada defesa governista da UNE com concessão de bolsas e outros benefícios.
Esta situação garantiu uma resistência pouco expressiva da juventude quando o governo Lula, se utilizando de farta propaganda, ainda no início do primeiro mandato, iniciou a primeira fase da reforma universitária com a Lei de Inovação Tecnológica, SINAES, PROUNI, inaugurando sua política de traição contra as bandeiras históricas dos movimentos sociais da educação como autonomia universitária, investimento na universidade pública, incentivo à pesquisa e um sistema de avaliação coerente com as necessidades da sociedade e não do mercado.
O quadro de mobilização dos estudantes já adquire novos contornos de mudança. Ocorreu um processo de unificação entre os diversos setores do movimento estudantil combativo como a FOE, a Conlute, e independentes, assim como uma ação coordenada entre os outros segmentos das universidades, os professores e funcionários técnicos, o que revigorou o movimento.
A Frente de Luta Contra a Reforma Universitária
A construção da Frente de Luta Contra a Reformas Universitária foi um passo importante que construiu uma forte coesão entre todos os segmentos da universidade para consolidar a resistência contra os agentes do governo Lula nas universidades do país.
Esta recomposição da esquerda no movimento estudantil não saiu incólume. Como já era de se esperar de um governo que encaminha um projeto via decreto, a truculência foi a característica marcante do projeto Universidade Nova-Reuni. Inúmeras artimanhas burocráticas e violência policial foram forjadas para que fossem aprovadas as medidas do governo sem que se ouvisse a sociedade e a comunidade acadêmica. As ocupações nas universidades federais acabaram sendo a grande resposta a esta truculência. Apesar das versões preconceituosas e mentirosas da mídia burguesa, o movimento estudantil retomou nacionalmente uma visibilidade expressiva, mesmo com ausência da direção majoritária da UNE.
Tropa de choque contra estudantes
Na UFBA, no dia 15 de novembro, em plena comemoração do dia da República, o governo mostrou a sua faceta antidemocrática, atacando a ocupação dos estudantes com spray de pimenta, bombas de efeito moral e golpes, prendendo 4 estudantes.
O desespero do governo Lula ficou patente na UFF, quando no dia 23 de outubro, no Conselho Universitário, com a presença de mais de 500 estudantes o reitor resolvera adiar a votação por saber que poderia perder, ou mesmo ter um desgaste político intenso, já que boa parte da comunidade acadêmica se mostrou contrária ao projeto de expansão.
O reitor continua intransigente, interferindo na composição do grupo de trabalho que construirá um projeto de expansão, encaminhando os nomes ligados ao governo, além de manter a proposta de expansão universitária dentro dos prazos do REUNI.
Em Juiz de Fora, Minas Gerais, a tropa de choque da polícia militar foi acionada para fazer um cordão de isolamento ao redor do prédio do Museu de Arte Murilo Mendes, onde se realizava o Conselho Universitário que aprovaria o REUNI. Diante de tal autoritarismo, muitos conselheiros acabaram abandonando a reunião.
Na Universidade Federal de Rondônia (UNIR), a “democracia” universitária foi exercida atrás dos muros de uma base militar! No entanto, na Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC foi possível arrancar uma vitória com muita luta, não sendo aprovada a adesão da universidade ao REUNI. Havendo resistência com atos e ocupações também na Universidade Federal do Estado de São Paulo – UNIFESP, Universidade Federal do Paraná – UFPR, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS e da Universidade Federal de Goiás – UFG. Além destas houve resistência em outras universidades como UFRRJ, UNIRIO, UFAL entre outras.
Na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE, após a desocupação pacífica dos estudantes no dia 14 de novembro, a reitoria contratou seguranças armados e colocou 26 câmeras de monitoramento para intimidar os ativistas. Como se não bastasse, a reitoria criou o Grupo Tático Operacional – GTO, que terá como objetivo usar armas paralisantes contra os manifestantes.
A esquerda ganhou vários DCE’s
Este ascenso das lutas desmascarou ainda mais claramente o governismo da UNE e acabou por reverberar diretamente nas eleições para os DCE’s das federais, levando o movimento estudantil de esquerda que lutou arduamente contra o REUNI para vitórias importantes como foi o caso da UFRJ, UNB entre outras universidades pelo país. Mesmo após sucessivos golpes, temos universidades que estão resistindo duramente contra as reitorias governistas. Organizações de base surgem neste processo dando uma nova cara ao movimento estudantil, deixando a UNE cada vez mais distante da dinâmica real das lutas.
É necessário que mantenhamos este clima de unidade na esquerda para enfrentarmos os futuros ataques neoliberais do governo Lula, por isso, é crucial fortalecer nacionalmente a Frente de Luta Contra a Reforma Universitária, além dos seus comitês locais, de modo a trazer para a luta os inúmeros estudantes inconformados com o sucateamento das universidades públicas.
É urgente converter o crescimento da esquerda nos DCE’s em uma relação mais estreita com a sociedade e com a base do movimento estudantil, sem que se restrinja às questões internas da universidade, de modo a resgatar o papel da universidade na sociedade como um todo nos seus diversos setores como educação, saúde e tantos outros, ressaltando-se a necessidade de aprofundar o seu caráter popular e democrático.